Quarta-feira, 15 de Julho de 2009

Animam-me as quebras

Adoro mudanças de espaço...adoro re-explorar-me num sítio diferente com outras pessoas que não me conhecem. Gosto dos sítios onde ninguém me conhece. Gosto de me reiniciar...não é artifício. Tudo o que descubro de novo num sítio de gentes novas é transportado para os sítios outros onde me movimento. Mas a sensação de poder ser qualquer coisa anima-me...porque o início de uma relação com quem quer que seja é assim, posso ser tudo, posso ou não ser aceite, mas nunca tenho de me falsificar. Não há imagem para manter. Mudo a disposição do quarto duas vezes por ano...

Animam-me as quebras que não cortam com o passado mas antes o (me) renovam!

Segunda-feira, 13 de Julho de 2009

Como filosofia de vida

Há maratonas noite dentro. Há capacidade de coser um vestidos, pintar salas, fazer de cabos e holofotes espectáculos de luz, fazer de antigos arquivos de biblioteca camas, de cruzetas meios de pendurar cenários, transportam-se objectos a que peso for, das cadeiras partidas fazem-se poltronas, de barracões abandonados fazem-se salas de espectáculo... de nós fazemos eternos lutadores por condições para uma arte tão abandonada em Portugal e no entanto aquela que para mim é a mais bonita porque é a mais humana. É a efemeridade que lhe traz a beleza...o instante irrecuperável, a arte a ser construída no momento em que chega aos olhos do mundo.

Domingo, 12 de Julho de 2009

Le Paysan - Paul Cézanne


Havia tanta coisa para escrever e a mim não me apetece escrever mais que Isto.

Sábado, 11 de Julho de 2009

Sangue no Pescoço do Gato - Rainer Fassbinder

"MULHER DO SOLDADO MORTO Só tens de fazer como se ele nem existisse.

RAPARIGA Mas não consigo (...)

MULHER DO SOLDADO MORTO Isso é mau. Muito mau. Quando o homem se apercebe de que és presa fácil apanha-te e manda-te logo fora.
(...)
Porque um homem sente-se bem consigo próprio quando é capaz de conquistar uma mulher. Se não for assim, goza até onde quer e depois não lhe interessa as consequências. É a vida"


Sangue no pescoço do gato
, Rainer Werner Fassbinder

Detesto personagens que só dizem verdades.

Sexta-feira, 10 de Julho de 2009

As cores que falam aos olhos

Na verdade, estava muito bem ali, mas fugi. Avancei e chamei-vos a todas como se as conhecesse desde sempre. Receberam-me com serenidade, como se me esperassem já. Ofereceram-me beijos, flores e abraços salteados de breves degraus pretos. Houveram breves diálogos de palavras soltas verdes, azuis, amarelas, vermelhas... que nada disseram. O que disse alguma coisa foi a vossa paz e harmonia a candura ao receberem-me, o ar de arco-íris... a simplicidade. Breve, mas feliz.

Quinta-feira, 9 de Julho de 2009

Numa mão a filha, na outra o cigarro...

Tudo foi demasiado instantâneo. Tudo ficou cá...mas a avidez de informação desnecessária não deixou lugar à confusão. Ficam certezas que não deviam sê-lo...certezas que bloqueiam passagens novas. Auto-censuras. Algumas pessoas só existem genuínas se forem sozinhas, não só interiormente mas também sem olhares. Que corrompem, por fraqueza nossa (minha). Saudades de mim.

Terça-feira, 7 de Julho de 2009

Quinto império - Fernando Pessoa

O QUINTO IMPÉRIO

Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa,
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar!


Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raiz-
Ter por vida a sepultura.


Eras sobre eras se somem
No tempo que em eras vem.
Ser descontente é ser homem.
Que as forças cegas se domem
Pela visão que a alma tem!


E assim, passados os quatro
Tempos do ser que sonhou,
A terra será teatro
Do dia claro, que no atro
Da erma noite começou.


Grecia, Roma, Cristandade,
Europa- os quatro se vão
Para onde vai toda idade.
Quem vem viver a verdade
Que morreu Dom Sebastião?


Mensagem (O encoberto), Fernando Pessoa

Os diálogos a um

Gosto de passar pelas pessoas da rua que a pé tem sozinhas diálogos com uma série de gente que lhes passa e passou na vida. Gente que pelo bem ou mal marca e fica ali para as conversas solitárias. Fazem gestos com as mãos, com o corpo...se for preciso falam baixinho e tem todo o tema da conversa estampado na cara. Depois ouve-se um barulho, vê-se um movimento brusco, uma cena inesperada, ou alguém conhecido...ou simplesmente alguém que chama a atenção. Vai-se embora a companhia dos passeios solitários e neutralizam-se expressões faciais... na esperança de que ninguém tenha percebido o quanto era importante esse momento a sós... em que escolhemos as respostas às nossas perguntas, em que finalmente as coisas acontecem como o sonhado.

Domingo, 5 de Julho de 2009

Férias...

A miragem...
...quem corre por gosto também cansa, mas mesmo assim persiste em correr...

Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

Eu já sabia que vinham aí mudanças de humor repentinas. Não mudou nada na minha vida, mas decidi não andar a auto-deprimir-me. Estou bem-disposta e desejo-vos o mesmo estado de espírito =)

Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

Eram as cores dos Tarahumaras


Só me apetece revestir-me de cores neutras. É isto. que me traz este lugar... sinto-me incapaz de criar, parece-me tudo esgotado. Foram as cores já há muito e não sinto felicidade pelos arco-íris ou pelas flores, as pombas não me dizem nada e não me apetece dançar na rua. Só tenho momentos de paz quando estou a fazer algo que é obrigatório, alguma coisa que é lei, porque aí contento-me com as condições.
O que podia ser mudado e nunca o é angustia-me. A vontade é de renovar-me noutro sítio qualquer, ser uma pessoa nova...podia até ser na mesma cidade, se mudassem as gentes. Adoro as pessoas que me rodeiam, mas fui feita para ser constantemente saltitante...a permanência das mesmas caras, a falta de conhecer pessoas desanima e cria uma rotina desordeira que me mantém estática...que carece da constante evolução de que preciso para me animar.

Nem faço ideia se já postei isto. ... são tantos dias e o texto já antigo...

No chão tudo fica mais claro. Olha-se agora tudo rente ao chão. Percebe-se agora o que é ter de estar ao nível dos pés de todos...percebe-se porque fazem maratonas de arrastamento nos chões das ruas aqueles que não arranjam mãos para os ajudarem. A dificuldade de se levantar na dor. Chega-se a conclusões nunca antes vistas por nós. São Heróis. Tropeçam, rastejam, mas levantam-se, mesmo com a dor, levantam-se e erguem a cabeça. Endireitam-se com dignidade e olham em frente. Seguem ao escuro, com medo, mas valentia.

Terça-feira, 30 de Junho de 2009

Para uma estação

"São precisas novas cores. Os tecidos antigos estão um pouco desbotados e estes tem cores que mais me agradam, mas são leves demais... ficamos-lhe gratos por ter trazido alguma coisa boa para o calor... mas de verão ainda se passa sem roupas, de inverno é que não."

Chuvas de verão

dessas eu gosto, que trazem o cheiro a terra, areia ou (sem mais alternativa) alcatrão molhados...

Domingo, 28 de Junho de 2009

A fugitiva - Marcel Proust

Mas basta que o amante seja ao mesmo tempo um pintor como Elstir, e então a palavra do enigma é proferida, temos enfim diante dos olhos aqueles lábios que o vulgo nunca notou naquela mulher, aquele nariz que ninguém lhe conheceu, aquele aspecto que ninguém lhe adivinhava; o retrato diz: " O que eu amei, o que me fez sofrer, o que eu sempre vi, é Isto"


A fugitiva - Albertine desaparecida (Em busca do tempo perdido, volume VI), Marcel Proust

Sábado, 27 de Junho de 2009

Bairro dos pescadores - Silva Porto



Bairro dos pescadores” (1884) – António Carvalho da Silva Porto.

Fico muitas vezes triste com os outros e comigo, mas não guardo rancores. É uma paz, desculpe-me a quem eu lembre uma freira a falar. Existem muitos erros pouco perdoáveis, mas as pessoas não desiludem nunca. Não desiludem porque nunca iludiram. A iludida fui sempre eu... mesmo se tentaram manipular-me, a iludida sou eu e a pobreza de inteligência para captar a intenção de manipulação continuou a ser minha. Mas não guardo culpa, não tenho paciência para tormentos inúteis.

É esta a paz que procurava e que aos poucos e poucos reencontro. Aquela que tem o tempo todo e que deixa as coisas andarem ao ritmo que são. A paz que me faz ver qualquer dia, qualquer pessoa, qualquer sentimento como mais uma experiência que enriquece. A paz que me cresce e me harmoniza com tudo, até com as tristezas.

De uma manhã na praia em tons suaves de senhoras a puxar do mar as redes...do mar que não dá resistência e antes deixa que as redes lhe levem as ondas à areia.

fico triste comigo e com os outros

Quinta-feira, 25 de Junho de 2009

Afinidades Eletivas - René Magritte



"Afinidades eletivas"
(1933), René Magritte
É Isto. não nascemos e já estamos presos. Ainda por cima tudo parece livre lá fora. Resta arranjar flexibilidade para poder passar nos intervalos. Porque se os há, com certeza servem para mais que olhar de longe...quando se saí caí-se imediatamente. Depois ou se fica para sempre no chão ou se aprende a voar pelo espaço. É melhor ficar a ser-se embalado na segurança da gaiola? Há dias que sim e outros que não...mas só uma vez se escolhe. Se se saí, dificilmente se volta... se não se saí não se voa alto. As vantagens e desvantagens são o difícil das escolhas. O risco é o princípio da liberdade.

Terça-feira, 23 de Junho de 2009

W.A.Mozart - Lacrimosa

Não é da empregada da limpeza que sinto falta...é da música que a faz limpar mais aplicadamente. Mozart, Lacrimosa. Nunca cumprimenta os alunos, não fala e mal limpa as salas. Para ela os alunos de teatro são uma espécie quase repugnante...mas desde que a ouvi limpar daquela maneira triste da música de lágrimas não deixo de lhe ter uma grande ternura. Ao mesmo tempo uma pena por a vida dela que me parece intolerável ao olhar que trás sempre, de tristeza, como o teu.

Sexta-feira, 19 de Junho de 2009

Libelinhas

Quero até ao fim que me siga a libelinha (agora, pelo menos). É uma eternização na efemeridade desse insecto. Não é possível que assim eternizada em uma imagem, que não acaba antes de mim, presumo, morra eu. Não antes que todos os amigos meus morram também, ou as libelinhas...ou talvez nunca mais frequentem um rio as pessoas, nunca mais as vejam e assim eu possa ser apagada das memórias. Recordada em datas e nunca (como queria eu) num rio, na água fresca e limpa, nas árvores, nas flores, no sol de uma tarde agradável...

Quinta-feira, 18 de Junho de 2009

Pirite


Como a Pirite. Nascer de forma bem definida e geométrica. Os ângulos todos no sítio... a cor de ouro a revestir-me. Ouro dos parvos, chama-se Pirite. Lisa, sem essas rugas que me trazem as imperfeições e essas curvas que deitam a perder os traços firmes, longos e bem medidos das linhas rectas, que podiam ser a minha salvação.

Quarta-feira, 17 de Junho de 2009

Está sol mas estava nevoeiro de manhã. É disto que não gosto, os enganos do tempo...

Domingo, 14 de Junho de 2009

Saudades de natais arco-irizados



Do tempo em que eu de fato-de-treino rosa, a parecer um pijama, e de cabelo despenteado (com um lacinho a distrair), ficava com ar de boneca...tempo em que o que me bastava era essa árvore, cheia de brilhantes e magias, que permitia que fosse eu capaz de agarrar a mão de um homem. De o levar comigo para essa aldeia onde nos iluminariam luzes das cores todas todos os dias. E assim me bastava o homem de balão... porque me sorria sempre, sempre e com olhar brilhante. Trazia em si os aconchegos que merecem os pequenos. Eu só tenho um metro e cinquenta e cinco...

Sábado, 13 de Junho de 2009

Fernando Pessoa... 121 anos

Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.

Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Que tem instintos gerais
E sentes só o que sentes.

És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu.
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.


Fernando Pessoa

Sexta-feira, 12 de Junho de 2009

Woman with a pearl - Camille Corot



"Woman with a pearl", Camille Corot.
Dias de pintar retratos. Em que é fácil apanhar-me nesse ar distraído que não é alegria nem tristeza, é adormecimento. Daqueles em que tudo é extremamente demorado... em que custa sair de um lugar para outro. Não é que haja alguma coisa que prenda a um lugar...é uma inactividade do corpo e lentidão de pensamento. Dias em que frequentemente me levanto para voltar a sentar como se estivesse cansadíssima... de dormir. Ou em que paro a meio do caminho porque esqueci o objectivo.

Quarta-feira, 10 de Junho de 2009

Lembro-me do tempo em que eu dizia que não tinha medo, quando chegava já de noite da escola. Não era preciso companhia, podia seguir assim...era perto, a casa. Depois ia pelo caminho a chorar de medo, com um passo acelerado para chegar mais rápido. Chegava com os olhos lacrimejantes. Dizia que era do vento junto com a noite, a baterem nos olhos, que me faziam chorar...

Ainda hoje há esse vício de querer ser mais forte que eu.

Incesto - Mário Sá Carneiro

"Um artista pode sofrer muito, ser muito infeliz até à morte. Acredito mesmo que entre os artistas se enfileirem alguns dos grandes desgraçados da terra. No entanto, na desventura de um artista, por mais amarga que ela tenha sido, brilhou sempre um raio de sol. A sua desgraça não foi de certeza a de uma existência vazia e desoladora - que é a maior e mais real miséria deste mundo"


Incesto
, Mário Sá Carneiro

Terça-feira, 9 de Junho de 2009

Liebespaar - Otto Mueller


"Liebespaar", Otto Mueller
Exótico, cheio de cores e de corpo...o estranho é que existe ali uma espécie de sofrimento, apesar de estar a rapariga semi-nua...alguma coisa impede um desejo de ser concretizado. Existe um impulso retraído, um nervosismo nas mãos dele. Talvez seja a paisagem a impossibilitar o avançar do beijo...

Segunda-feira, 8 de Junho de 2009

Não. Sou uma pessoa pacífica e positiva!

O tempo em que eu podia ter o tempo como meu. Posso. Tudo virá ter a mim, tudo o que me pertence, a seu tempo...não há pressa, não há stress, não há artifício. A melhor forma de as coisas virem ter connosco é a calma. Voltarei a poder passar horas simplesmente a olhar a paisagem, porque é o que tenho para fazer na hora. Tudo são experiências que ajudam a trazer a paz...que devolvem ao espírito uma leveza que só há na paciência, no amor e no tempo não se julgar nunca inutilizado, porque não paramos. É constante o movimento interno que nos eleva e traz os arco-irís!

Há palavras que fazem milagres...

É só uma angústia, aparentemente mais física que outra coisa qualquer. Mal me apetece pensar, deslocar-me, estudar...o que for. Quero permanecer o dia todo calada, mas nas horas do choro torna-se insuportável manter as lágrimas cá dentro ou sozinhas cá fora. A vontade é de hibernar, até passar tudo, como se não se tratasse de mim... daqui a uns dias ou horas, já sei, estou alegre outra vez sem motivo...até lá tenho de viver com estes suspiros que fazem em seguida o ar subir pela garganta e sair em forma de choro constante e desesperadamente sem motivo!

Sábado, 6 de Junho de 2009

Repito-me nesta vontade de parecer uma lesma... desprezível e rastejante. Poder ser fraca...deixar-me ao rídiculo, ver que me repugnariam por ser assim. Esperar que alguém aceitasse as fraquezas, talvez com compaixão, fosse capaz de abraçar trapos humanos...
É este o efeito da chuva.

Sexta-feira, 5 de Junho de 2009

Saldo - Arthur Rimbaud

SALDO

Vende-se o que os Judeus não venderam, o que nem a nobreza nem o crime provaram, o que o amor maldito e a honestidade infernal das massas ignoram; o que nem a ciência nem o tempo reconhecem; as vozes restauradas, o despertar fraterno de todas as energias corais e orquestrais e suas aplicações instantâneas; ocasião única de libertar os nossos sentidos!

Vende-se Corpos sem preço, de qualquer raça, de qualquer mundo, de qualquer sexo, de qualquer descendência! Riquezas brotando a cada passo!

Saldo de diamantes sem controlo!

Vende-se anarquia para as massas; satisfação irreprimível para amadores superiores; morte atroz para os fiéis e os amantes!

Vende-se casas e migrações, desportos, magias e confortos perfeitos, e o ruído, o movimento e o futuro que eles fazem!

Vende-se aplicações de cálculo e saltos inauditos de harmonia. Achados e termos sem suspeita, entrega imediata,impulso insensato e infinito aos esplendores invisíveis, às delícias insensíveis,— e seus segredos enlouquecedores para cada vício — e uma alegria assustadora para a multidão.



As iluminações
, Arthur Rimbaud

Terça-feira, 2 de Junho de 2009

Dois cavaletes. Dois... prontos para um acompanhante, para que possamos retratar-nos em tintas, frente a frente. Para nos fazermos querer que também as cores falam, que tudo fala... para perceber a essa pessoa, a maneira como sou eu vista por ela, a dedicação com que me pinta. Poderia eu ser uma mera mancha desfocada e sem grande significado nem minúcia... podia ser um conjunto infindável de pormenores e cores e contrastes e vida.

Domingo, 31 de Maio de 2009

Professora solidão

Pode até parecer que permanecer em casa durante meses é mau. Sozinha. Não... leva a uma dor contínua que se instala na falta de afectos mas que é compensada na tolerância a nós mesmos. Perdoa-mo-nos tudo porque é só connosco que vivemos e sozinhos não podemos ficar. Lutamos por nós até ao fim, aprendemos a gostar-nos assim e descobrimos que temos qualidades e que essas só serão realmente valorizadas pelos outros quando as valorizarmos nós. Em duas palavras, auto-estima.

Devia ser assim sempre, um ano a estudar/trabalhar e a viver a vida normal e um ou meio ano em casa sozinho. Era isso que me apetecia...

2008-10-12

"Corria-me a ideia de que ultimamente estavas bem mais alto. Talvez fosse de te ver do chão, mas a verdade é que as calças até pareciam ficar-te curtas. Agarrei em umas durante a noite e baixei a bainha. Aquele trabalho minucioso sobre ti era o único que podia fazer naquele momento. Nem cozinhava já. Tu nunca me reprovaste por isso, só suplicavas baixinho da cozinha...se calhar nem era para eu ouvir."

Sexta-feira, 29 de Maio de 2009

Portrait of the Journalist Sylvia von Harden - Otto Dix


"Portrait of the Journalist Sylvia von Harden", Otto Dix.
O vermelho que se apodera de tudo como se tudo o que não é ali vermelho a qualquer momento pudesse passar a sê-lo. Uma ambígua mulher que podia ser um homem, ou que pode ser um travesti...de mão supostamente caída e no entanto uma posição tão desconfortável que é impossível que seja natural e orgânico o pousar dessa mão. Os dedos longos e um cigarro aceso pela caixa de fósforos outra vez vermelhos...como se tudo fosse incêndio e apenas nessa figura andrógina houvesse fogo, o sangue à vista de todos e cinzas já negras, acabadas numa perna cruzada com a meia a descair e um olhar de tristeza, o fim de uma máscara que se tenta ainda pela pose.

Antonin Artaud - Teatro da Crueldade



Não sei, fascínio pela loucura das ideias desse homem que me embebeda só de ler as coisas dele...

Alguma coisita... não sei o que escrever, não tenho nada para dizer agora. Senti só uma necessidade de vir ao meu cantito...descobri que não posso fazer de conta que existo fora das coisas, tenho de pessoalizar, senão ninguém acredita. Ah, uma ideia antiga: o corpo é muito mais sincero que essas matreiras das palavras. São as palavras que me fascinam mais.

Quarta-feira, 27 de Maio de 2009

Experiência 7: Isolamento do ruído e movimento...

Fechar-me num quarto...uma, duas semanas, sozinha. Libertar-me das pessoas, registar as variações. Não por anti-socialidade, mas por necessidade de estar só comigo. Não sou anti-social, até me adapto bem a toda a gente, mas gente demais que considero retrógada...pessoas que eu vejo como se vê um velhinho, com ternura...compadeço-me da ignorância e estupidez. Desculpem se me superiorizo...

Terça-feira, 26 de Maio de 2009

Música

Num Sol que subiu meio tom. Sol sustenido. Seguiu pela escala cromática e terminou num curto, semi-colcheia, Dó em Staccato... Escala de Ré maior, Dó e Fá acima, sempre mais meio tom. Mais meio menos meio sempre parece nada, sempre é alguma coisa. Suspendeu no lá e achou isso uma esquisitice, que acabara de quebrar alguma regra vital. Solfejos sem partituras e quintas perfeitas alternadas com terceiras menores e quartas aumentadas... músicas desnorteadas...

A música é a única língua que toda a gente que a saiba ler percebe em qualquer país do mundo... talvez a do corpo também...mas há quem não saiba nem ler um olhar de tristeza...

Domingo, 24 de Maio de 2009

Passos em volta

Vagueava por entre os conhecidos e percorria com o olhar tudo o que não fosse a cabeça deles. Embalou na dormência, sorriu aos que passavam e esqueceu, por momentos. Lembrou-se depois de que se esquecera mas desta vez não procurou nada. O destino sempre encontrara e reencontrara como bem quis os lugares que pretendia. Pensou que era esse o método. Esperar o acaso.

Que o segredo era acreditar no trevo que encontrara à dias, disseram. Foi o que fez... mas primeiramente não acreditou, esqueceu-se, apagou-se e não procurou. Não viu nada do que queria.

Depois tinha um mapa, encontraria, mas não precisou dele. Os seus pés foram o guia ao local que procurava, sem quererem, sem pensarem nisso. Não quis reconhecê-lo, não pode, imobilizou-se e pensou que não era o fim do mundo. Fingiu muitas coisas e não concluiu coisa nenhuma. Era um prenúncio.
Não era suposto ali estar... mas uma voz amiga chamou. Por isso, passou, abriu as janelas e voou...


"Acabou-se a incerteza
Dos seus passos em volta
Dum sentido que ele nunca
Encontrou
Pela primeira vez
Tinha o destino nas mãos
Desta vez ele não duvidou

Acabou-se a angústia
Dos seus passos em volta
Dum amor com que ele apenas
Sonhou
Pela primeira vez
Tinha o futuro nas mãos
Abriu a janela e voou ... "


Passos em volta, Jorge Palma

Sábado, 23 de Maio de 2009

Horas...horas e horas a vaguear. Profissional da espera...esperar por autocarros, por aulas, por atendimentos, por cafés...mas o que custa é sempre a espera de pessoas, é a que mais demora, sempre.

Quinta-feira, 21 de Maio de 2009

Gaivotas em terra

Tenho pena da gaivota azul do chapéu empolgado pela palavra: mar. A montanha já se não veste de branco, mas sim de laranja por causa da saudade que se lhe acendeu assim que esqueceu de voar. As algas a flutuar fazem-lhe lembrar as bolinhas de seda justas e de cheiro leve acompanhado por todos os sentidos que um dia conseguiu ter, em terra.

Quarta-feira, 20 de Maio de 2009

Experiência 6: Pensar com todas as sílabas...

Depois nos sítios onde as pessoas não estão e passam só carros apressados, falo alto. Para não me faltar a voz mais tarde de estar tanto tempo calada e para verificar a minha dicção. Não sei se costuma acontecer, mas a mim sim. Falo e repito frases que penso porque não saíram com a dicção certa. Até calada, só em pensamento, faço isso. Depois desligo do pensei e fico só como polícia a ver se o que digo é perceptível...ao público?

O que se contraria há quase 20 anos algum dia há-de ser aceite :)

Terça-feira, 19 de Maio de 2009

Verde porque sim.

Quinta-feira, 14 de Maio de 2009

A Mais Forte - August Strindberg

"Suas tulipas e suas paixões não foram fortes o suficiente para que você mantivesse o amor de um homem – enquanto que eu fui capaz de tal. Seus autores predilectos não lhe ensinaram a viver – não como eu aprendi. Nem fizeram com que você desse à luz um pequeno Eskil, mesmo sendo este o nome do seu pai... e porque está assim tão silenciosa, sempre com os lábios selados? Agora, vou para casa – e levo as tulipas comigo. Suas tulipas! Você achou difícil aprender com as experiências alheias – difícil, também ceder e se humilhar – está quebrada como um galho seco – e eu, sobrevivi!"


A Mais Forte, August Strindberg

The Delfic Oracle - John Godward



"The delfic Oracle" (1899), John Godward.
Atar o cabelo, despida. As tranças ao lado, os entrelaçamentos, as confusões...no cabelo. Frio ou não, num lugar à mercê das temperaturas, ao ar livre, à mercê de tudo e todos e ainda assim nua. E o corpo direito, firme, a cara erguida, o olhar em frente...a confiança. O fumo nos pés, que a fez baça, que ofuscou o nu e a clareza daquela pele...

Quarta-feira, 13 de Maio de 2009

Um ninguém e cem mil - Luigi Pirandello

Enfim, se às vezes notam muito ao de leve, que não são para os outros o mesmo que para vocês próprios, o que fazem? (sejam sinceros.) Não fazem nada (...) Se vos importar, talvez tentem corrigir esse juízo dando esclarecimentos, explicações; se não vos importar, deixam andar; encolhem os ombros exclamando: "Ora, afinal tenho a minha consciência, e isso basta-me."
Não é assim?
Meus senhores, desculpem. Já que vos veio à boca uma palavra de tanto peso, permitam que vos introduza na mente uma ideia muito leve. Esta: que a vossa consciência não é para aqui chamada. Não direi que ela nada vale, uma vez que é tudo para vós; direi, para vos agradar, que também eu tenho a minha e sei que não vale nada.


Um ninguém e cem mil
, Luigi Pirandello

Terça-feira, 12 de Maio de 2009

Experiência 5: Não se caí todos os dias

Nem sempre é possível lembrar-mo-nos do porquê de gostarmos de alguém, mas não é por não se ter motivos que se deixa de gostar...Não terei onde cair, mas caio com a graciosidade de sempre. Sou mais que digna. Não me podem deitar abaixo disso, nenhuma força chega. Deitam-me abaixo da minha estabilidade, é provável, mas nunca da minha dignidade. Saírei sempre ganhadora em alguma coisa, e Isto. nem sequer é uma guerra.